CONTO NA ÍNTEGRA

Antônia seguiu pela entrada lateral esquerda, onde o corredor levava a chamadas efusivas sobre preços especiais dizendo Economize dinheiro, viva melhor. Um telefone celular novo tinha trinta porcento de desconto. Um aspirador de pó cuja promessa era ser o tubarão da poeira saía com vinte e cinco porcento de desconto a menos. Também tinha um aspirador tradicional, sem a turbina vistosa do outro, e um cartão de memória que podia armazenar mais de quintentas mil fotos. Ela tentou avaliar se era isso mesmo: quinhentas mil. Mal podia imaginar tantas fotos juntas. Talvez ela, os três filhos, e se cada filho tivesse outros três filhos, e, desses, cada um mais três filhos -- já seria o quê, bisavó? -- aí, sim, quinhentas mil fotos podiam encher o cartão. Na entrada ainda insistiam numa máquina de exercício abdominal e um videogame que ela pensava que, em algum momento, acabava comprando para o neto, que ainda estava por chegar. O corredor continuou com um cheirinho irresistível de pão, e ela enfiou no carrinho duas broas que a mulher havia encomendado, quatro pacotes de biscoitos Oreo e outros salgados, oito barras de cereal. Ainda por ali aveia, baunilha, centeio. Era só, ainda, a sessão do café da manhã. Seguiu adiante, e eram as verduras, as frutas, as conservas; as carnes, as aves, os peixes. Banheiro, higiene, cama, mesa, banho; delicadezas, jantar, petiscos finos, vinhos; melhora pra casa, melhora pro quintal, coisa pras crianças, brinquedos, bebês, e o café da manhã. O pão, o café, os biscoitos, os sucos, as frutas, as verduras. O carrinho já cheio, Antônia tinha o papel amassado, ainda estava atrasada, precisava passar na padaria pra ela mesma antes de ir pra casa, o terminal de ônibus estaria cheio e só até lá era uma andada danada debaixo de sol, de chuva, se fosse; duas vezes -- du-as-ve-zes só -- o menino dela tinha levado, um rapaz que já tinha mais de dezesseis anos, levou na camioneta do pai, só porque chovia que nem caniveta e ele estando à toa resolveu levar até o terminal; nem pensar em levar até o conjunto, não devia saber nem voltar, porque o conjunto era daqueles sem tamanho, cinquenta apartamentos na frente, cinquenta na profundidade, dez na altura, e aí eram quinhentas Antônias ali, cada uma no conjugadinho, dando bom-dia para o pátio central onde todo mundo se via como numa televisão, o cheiro de panela e gordura de banho e amaciante de roupa rodava por ali de segunda a segunda. E não era só Antônia não, tinha bandido, mocinho, galã de novela, modelo, manequim, puta, de um tudo. E ninguém com a vida de ninguém não, o condomínio era aquilo e acabou. Só se faltava água é que um falava com outro, e era um problema, porque eram quintentas famílias ou meio-famílias ou o que sobrou de família, viúva, cafajeste, todo mundo precisava de água. As canelas dela já estavam acostumadas, tonificadas pela andança diária entre o ponto, o poste, o terminal, a casa. A mulher morava numa torre alta que, de longe, como se fosse um descascado na parede, via o bloco. O bloco era famoso, tinha nome, tinha endereço conhecido, e Antônia ria sem ter vergonha, era lá que ela morava, era fama, mas era má fama que o bloco tinha. E com tanta andança no mercado, ia acabar se atrasando e chegando ainda mais cansada. Naquele dia, de manhã, não tinha feito nada e ainda tinha tudo por fazer na casa da mulher, tinha trazido só o dinheiro do supermercado -- traz o troco e a nota, guardava no sutiã, meio enfezada, custava ter um docinho de troco, um chocolate que fosse, que dividisse ainda com o filho dela e o seu. A seção do almoço passou de novo, e de novo, e de novo, e também as panelas, os copos, a louça toda, como se lembrasse até o barulho da panela de pressão e os talheres batendo e a garrafa do refrigerante vazando e depois a água correndo na louça, fresca, e o sorvete, fresco pra eles. No horizonte ainda tinha mais caixa, um corredor de prêmios, de promessas, de pedidos, de novidades; o mercado pedia ela em casamento todos os dias que aparecia por lá. O carrinho cheio patinava no chão, o diacho do corredor se esticava, foi dando nela o que achava ser labirintite, uma claustrofobia daquele lugar, aí que até acabava de ter notado, será que é porque era cedo que não tinha nem alguém pra perguntar onde é que era a saída? Via no espelho de disco, acima da prateleira, ela mesma, e só; sempre pensava que o espelho ali era ligado direto com a polícia, pior ainda se fosse preta como ela, imagina só, só pensava nos filhos, como era que um dia só dela fora do mundo acabava complicando as coisas, quem é que ia buscar a nenê na creche, meu deus, e gostava da nenê, ia estudar, até um certo orgulho de ter nascido na cidade, não era que nem ela, filha de parteira, na fazenda, era mais difícil pra ela sair de um lugar e ir pra outro; mas era assim mesmo, o importante era evoluir, ela mesma dizia, e o marido concordava, ah, meu deus, o marido que me chegasse atrasado pra buscar a nenê, tentando ligar pra ele, ali, o celular véio nem sinal mais dava, tava precisando de outro, a moça da Tim já tinha prometido desconto, tinha até impresso o contrato inteirinho pra ela, ganhava torpedo, ganhava bônus, fazia ponto, trocava ponto, acabava ela dizia quase falando de graça de segunda a sexta, e a Antônia até ria, quem vê pensa, moça, sei. E já estava ficando tarde, porque nem sinal e aí nem bateria, caindo já, perna doendo, bateu a fome, até, imagina a mulher deve estar enlouquecendo que eu não tou lá pra fazer o almoço dela, ia fazer língua de boi, a casa se enchia daquele cheiro delicioso de carne cozida no molho vermelho, ts, ts, ts, ts, ts a panela de pressão e só a Antônia é que sabia limpar a língua depois da pressão, isso a mulher não metia o bico, ficava até meio enciumada que o marido dela, o velho não poupava elogio. Imagina, a Antônia com o velho, imagina, nunca, deusquelivre, não, ela tava era muito bem de marido, o marido vinha de moto e quando tavam os dois em casa já vinha pedindo, só ela que mandava pra lá de vez em quando, quando brigava, brigava por ciúme, imagina, a moça índia, cabelo comprido, do bloco, do quinto andar, imagina, metida, não ia em churrasco, se bobear fazia até programa, imagina, não era tanto, mas dava em cima, dava entrada, dava sorrisinho demais pro marido dela, não gostava. Ela ainda chegou a parar e procurar um telefone, uma porta de funcionário, alguém pra perguntar onde que tava, meu deus, que coisa, já estava com fome, saco cheio de empurrar o carrinho, e gente, que coisa, era melhor deixar a compra de lado e continuar procurando a saída? Pelo menos um orelhão pra ligar e avisar o marido que precisava buscar a nenê e avisar a mulher que ela tava atrasada, que a língua já devia estar descongelada na bacia de água na pia, que ia ficar pronto na hora, talvez um pouquinho depois, sim, podia até avisar o doutor, ela tava atrasada, o mercado novo era grande demais. Abriu outro biscoito, do próprio carrinho, os pacotes vazios ali, bastava registrar que ela pagava, e a água vazia, pegou outra, já passava de novo a seção, tentou voltar, nada, outra seção, o carrinho era sempre tão pesado que o médico tinha dito que podia até ser isso o problema dela no joelho, na coluna, ela disse que era postura mesmo, não falou nada, deixava isso, imagina, reclamar. E as pernas doíam, não ia nem pegar um gelol porque depois ia ter que pagar, fazia depois uma água com sal numa bacia, em casa, meu deus, a nenê, o marido tinha ido buscar, claro, a menina da creche havia de ter ligado; acabou se instalando num corredor mesmo com um acolchoado para acampamento, não queria saber, não-iria-pagar, queria ter ido embora há muito tempo, tava perdida lá, imagina; um cobertor de fibra natural pra se cobrir, ainda, de repente as luzes apagaram e ela foi tateando aqui e ali para achar uma lanterna, e achou, o farolete tinha pilha incluída, conseguiu até ligar uma rádio, uma fm que ouvia de vez em quando, tinha música do Zezé, tinha programa de rádio, reclamavam de empresa, ela mesma iria até a rádio, que situação absurda aquela, não estava acreditando e dormiu, não tinha um bendito relógio dizendo que horas eram e ela foi acordando de susto em susto como se estivesse já em casa e o dia foi amanhecendo e ela continuou caminhando, e foi a mesma coisa com aquele dia, mesmo que ficasse com fome, gente, nunca tinha notado que supermercado nenhum tinha janela, era só corredor atrás de corredor e ela só tinha reparado quando precisava de uma pra sair; abriu um fogareiro, largou tudo que a mulher tinha pedido pra comprar e colocou outras coisas, já passava do salário dela o que era pra comprar, colocou um fogareiro, o colchonete, galão de água, filé, garfo, faca, prato, um agasalho mais quente pra noite, uma garrafa térmica, amanheceu que não podia continuar sem passar um café e pensar numa solução; pegou uma faca afiada também, grande, se alguém aparecesse com intenção ruim, não dava mais para saber, e cada noite acabava sonhando com alguma coisa mais louca que a outra, sonhava até que era, afinal, a mulher que tinha mandado ela no mercado, e com a filha, com a nenê, que até na embalagem do amaciante, mesmo que fosse uma nenê branca que nem nunca tinha visto tão branca, lembrava ela, e abriu a tampa do frasco só pra sentir o cheirinho, era, ah, era aquele mesmo, o cheirinho da coberta da nenê, e chorou baixinho. Onde é que tava o marido, a polícia não ia vir procurar, não? A mulher filhadamãe com certeza ia demorar até dizer que era alguma coisa de errado com ela; era até capaz de falar primeiro que a história era que ela tinha é sumido com o dinheiro da mulher. Só depois que acabava falando que era mesmo estranho, talvez estivesse dessatisfeita com o marido, e ia ficar por isso mesmo; era sempre assim com patroa nova, porque não tinha ligação, coisa mais fácil pra resolver problema qualquer era dizer que ela sabia que ela era só uma empregada; já tinha resolvido vários problemas assim, alguns deles que iam mesmo custar o emprego, mas salvava de vez em quando falando assim, embora doesse e depois ela resmungasse por tempo e contasse tudo pro marido como se tivesse vivendo de novo a história. O marido, que falta que já fazia, chorou, chorou de medo e de desespero porque já parecia ter tentado de tudo, até colocar fogo com álcool gel ou removedor de tinta ou acendedor de churrasqueira já tinha pensado, mas se não conseguisse sair era pior, morria sufocada ali dentro pela fumaça desses milhões de produtos inflamáveis, derretida num mar de vida diária entre sabonetes e molhos de tomate e guardanapos e pastas de dente e cadeiras de praia. Já tinha despontado uma lança e fazia duas a três refeições por dia, antes da luz apagar, quando o dia amanhecia, e às vezes um petisco quando dava fome, e o resto do tempo deslizava com o carrinho para frente, empurrava e patinava com ele, o mais rápido que podia, tentando achar o fundo daquele supermercado que a havia engolido; havia comido o filé mignon e o sorvete e o vinho e até o campagne que a mulher guardava só pro melhor dia, e ali tinha virado a própria rotina dela, cercada de embalagem de Omo e às vezes descansando no jardim externo montado como show room, debaixo de um gazebo imenso com folhagem falsa fazendo sombra da lâmpada branca. E depois voltava a correr, não conseguia pensar no que mais, às vezes desistia e ficava por ali, acampava, fazia das prateleiras ali sua própria casa, gritava de longe pra ver se achava alguém e aí começava de novo, cigana, a andar adiante; desistiu, deixou-se ficar, o acolchoado melhor, uma televisão sem sinal, via uns filmes, aprendera a instalar o DVD na parede, até um livro com lâmpada para dormir ela havia colocado no jeito, acabou lendo livro de motivação, livro de receita, livro de negócio, livro de amor. Meu deus, como fazia falta a nenê, que aperto no coração acabava de vez, e quando ela pensava forte, pegava o chinelinho que ela tinha achado que era igualzinho o da menina e olhava e apertava forte, a camisa do marido, também igual, enxugava o olho, que diacho de vida, esse cheiro de plástico; que sonho desesperador estava tendo, ao menos que fosse um sonho bom, uma praia, com eles dois e ela; e tremeu sozinha quando pensou que, no fim das contas, vai ver era outro sonho ruim que ela tinha quando pensava estar viva, e ali que ela tinha acordado, fosse na realidade ou noutro sonho, não sabia ao certo, podia pelo menos ter sonhado antes que era rica, que tinha menos conta para pagar, menos trabalho pra fazer, mais condição de comprar no mercado, que coisa, ela pensava, que dos dois sonhos os dois são ruins, mas ao menos no outro ela não estava só; carregou consigo ali no carrinho, no cantinho que ficava mais perto, onde as coisas se amontoavam, o amaciante; arrancou o rótulo fora, colou a filha, tinha na carteira de velcro a foto dela e tinha se agarrado naquilo como podia; rezava de que adiantava, meu deus, só que protegesse a nenê que não fizesse falta enquanto ela tivesse fora, e pensando que o marido tinha que dar conta, meu deus que vergonha até sentia de pensar que ele pensasse que ela tinha ido embora, porque nunca tinha nem pensado a sério de embora, menos ainda sem a menina, e de todas as vezes que falou pra ele ir pro raio que o partisse, que nenhuma vez era verdade e que ele soubesse que ela tava ali pensando neles. Certa vez, na prateleira de biscoito, passava já enjoada deles, nunca mais tinha pensado naqueles biscoitos que tinha comprado quando chegou ali e, no fim, naquela prateleira nova o biscoito que ela tinha pegado estava faltando, e era certeza que foi o mesmo, do meio da prateleira, Oreo, e outro de sabor de amêndoa com chocolate duplo, e outro chocolate triplo com menta. Estavam faltando, na mesma ordem, tinha passado por ali, se voltasse conseguia sair? Pois ali era como uma serpente enrolada em si mesma, até que enxergou o caixa no lado, socorro, meu deus, socorro, moço, o caixa, o caixa tá livre, ele disse, senhora, aqui, largou o carrinho, deixou mesmo bater na pilha de enlatado e o moço se virou estupefato, ela chegou com a compra que tinha na mão, o farolete, e o amaciante, e ele disse que era 29,90, e que ela podia ganhar outro se preenchesse o cupom.

TODOS OS ESPÍRITOS

Como Invocar o Diabo

Coleção Geração PR10

Kafka Edições

R$25

AUTOR
  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram
DESTAQUES