CONTO NA ÍNTEGRA

Estou dizendo que precisamos reestruturar nosso negócio na base. Born digital. Adaptação à essa nova era de negócios onde todos competem entre si: Uber, AirBNB. Os tempos são outros. Cidade-desespero conurbada: ilha global, hipercapitalismo. Dinheiro-líquido; dinheiro-dispositivo; dinheiro-pele.

No início, meu avô fazia o resultado de impacto. Não precisava pensar em pós-venda, em manutenção de cliente, processo de recompra, retenção de talentos. Ele veio do Ceará, então usava a peixeira e acabava com o sujeito encomendado à luz do dia. Não precisava de mais nada. Desceu para São Paulo com essa oferta de valor: eficácia. Não aportava em associação, não fazia marketing, não pensava em valor de marca, embora o branding dele operasse em todas as dimensões. Qualidade, boca-a-boca. Era isso. 

Depois, meu pai. Já nascido na cidade grande, estudando, conhecendo como fazer o negócio dar certo da base. Participação de lucro, prospecção de cliente, logomarca profissional, estudo de satisfação, revisão de processos. Lean services. Agile development. Scrum. A era do marketing: proposta de valor de eficácia, porque no negócio dele dinheiro nunca era o problema, mas sim o valor da segurança. Segmentação de mercado, nicho, sazonalidade. O cliente ideal: empresário, político ou lobista, pós-campanha eleitoral, sob investigação. Meu pai era o Volvo dos matadores, e com ele uma elite silenciosa que tinha nome conhecido na praça, secretários, contadores, conveniências. O seu próprio código de conduta foi escrito: os core and values da organização; o estatuto de responsabilidade social, e por aí vai. Cresci por esse regimento. 

O cara tinha olheiras, eu notava. Era tarde. Havia dado água a cada hora. A barba e os cabelos desgrenhados o faziam parecer ainda mais cansado. Ele continuava falando, mudava de assunto, me tentava de outras maneiras, mas a concentração que eu colocava no trabalho era impermeável. Já tinha desenvolvido uma casca praquelas coisas.

 

Eu ouvia, registrava, computava, mas evitava reagir. Na verdade, já estava reagindo. Cada etapa da preparação me dava um arrepio no estômago prazeroso, de excitação quase eufórica. Àquela altura, o cara falava sozinho, em voz alta, prescindindo de qualquer outra presença. O menino novo não tinha muito disso, então precisei reforçar. Era o trainee.

“Empurra ele pro banheiro, rápido”, eu disse.

 

O sangue havia se pulverizado pelo ar. Algumas gotículas sobre a mesa. O cara deitado sobre a cadeira, estirado, preso a ela pelas abraçadeiras. Empurramos a cadeira até o banheiro contíguo, ele ainda armado com a cartucheira. Olhei, pedindo permissão por gestos, para que me desse a faca. Assentiu. Me estendeu. Cortei as abraçadeiras, e o cara se amontoou no chão forrado de plástico. Ficamos em silêncio por alguns instantes. O menino voltara a olhar para o celular, trêmulo. Os olhos se moviam, convulsivos, grudados no visor. Me aproximei e disse que ele deixasse aquilo de lado. Que era confusão para ele. Que ele podia resolver depois.

 

“Escuta”, disse com firmeza, sacudindo pelo ombro. “Tem coisa para se resolver aqui, sim?”. Ele guardou o telefone no bolso, e parece, só então, ter se dado conta do que havia se passado.

“A primeira coisa é desatarrachar o vaso sanitário. Colocar ali, de lado, e deixar o encanamento aberto pra escoar.”

Disse ao menino que buscasse a primeira caixa de ferramentas. No peito do cara havia um furo, bem no meio, ensopado pela camisa. Na tinta óleo das paredes, a rajada rubra se expandia como um halo, tendo ele como centro. Algumas gotículas se agregavam e ameaçavam escorrer, suspensas, como nós nos suspendemos observando a cena estática — assombrosamente estática, porque esperava-se que se movesse, se dissipasse, mas era agora uma fotografia. Precisamos tirar a roupa dele, eu disse.

O menino prosseguia em choque, perfazendo com austeridade o gesto que reconhecia como um eco, e que afanava no peito outro tiro, nele mesmo. Mas não parecia sair do transe, calculando por instinto as contas internas e externas que aquele disparo desfechava. O cara ficava nu.

Centralizei o corpo no banheiro, as pernas dobradas, recostadas na parede, para que coubesse estirado no chão. O menino observava de longe, pairando os olhos, às vezes, nas caixas da cômoda. Retirei da mochila esportiva as capas para os pés, porque o chão se listrava de sangue. 

Saiu na varanda, a noite refrigerava. Deixei estar, temia que fugisse, fosse à polícia mais próxima, ao vizinho, esquecesse a carreira. Alcancei uma faca pequena, e abri talhos espessos no pescoço, nas axilas e nas virilhas, com a intenção de romper as artérias. As fibras desenlaçavam na ponta da lâmina; eu podia senti-las, como quando se preparava carnes. Ajoelhado no chão, apoiei as duas mãos sobre o peito, tapando o furo, e executei os movimentos reanimação cardiorrespiratória, bombeando o sangue para fora das artérias. O procedimento de primeiros socorros. Às primeiras pressões, o sangue veio vertiginosamente. Como uma esponja sendo comprimida.

 

A temperatura do banheiro parecia subir, pelo meu suor e pelo sangue que vertia. Depois, foi se desencharcando, como uma esponja. Mantive o exercício compassado, por quase cinco minutos inteiros, naquele procedimento ao contrário, como se estivesse reanimando o corpo. Logo estava sem cor, e parecia mais denso. A cavidade aberta pelo vaso sanitário sorvia o derrame. A expressão do rosto se enrijecia, e levemente deformada, embora ainda parecesse viva. Por algum tempo, o único barulho audível eram meus passos sobre o plástico e o ralo escoando.

“Preciso do galão que tá logo ali, fora da casa. De água sanitária.” 

Lancei sobre o chão, fazendo o primeiro enxágue. Deixei seguir pelo ralo, também, parte do volume, para levar consigo o cheiro quente. Trás o galão amarelo, agora. Ateei o desengodurante pelas paredes e pela lona, e liguei o chuveiro. Me trás a escova, está ali fora, do lado dos galões. Era usado para lavar os cavalos, e enxaguei a sala, escovando o que encrustara, e o corpo, até que se visse novamente a tonalidade da pele; tinha a aparência arroxeada, como um a de um leitão.

 

De tempo em tempo, precisava erguer a cabeça e respirar, buscar ar mais fresco, combatendo a tontura que vinha. O menino arregaçara as mangas, suando. Os sinos do rosto enrubesceram, e eu me aproximei, retirando as luvas, molhando a palma das mãos na água fresca da pia e umedecendo sua fronte. Calma. Calma. Apesar de alto, era delicado, um menino, ainda. Molhei seu rosto, deixando a água escorrer pela barba fina, quase invisível, das laterais. Ofegava. Em choque, acho que não sabia o que acontecia à volta. Enfiei a mão no bolso e retirei um comprimido, empurrando-lhe com o dedo na boca. Calma. Respira. Espera alguns minutos, estou contigo, tá? Respirei com ele. Aos poucos, arrefeceu. 

Da mochila esportiva, pedi as máscaras médicas, porque o cheiro de carne já voltava a emanar do banheiro. O pescoço havia virado um duto de onde fluía o sangue, e o plástico se ensopara, apenas vagarosamente rumando a cavidade aberta pela ausência do vaso. Havia um pacote com várias delas. Da caixa, retirei a marreta de média performance; e comecei quebrando os dentes. Um a um, empurrei as arcadas superiores e inferiores para dentro, soltando os dentes como sementes de um fruto maduro. Pedi que retirasse da mochila esportiva as caixas de sacos plásticos, que podiam ser selados com o deslizar dos dedos em pinça. Usávamos para congelados, e eu havia estocado algumas caixas de unidades maiores, de dois e três litros, que dissera comprar por engano.

 

Vou te alcançar as ferramentas e você guarda cada uma num saco separado, disse a ele. A marreta, agora, não precisa. Vou continuar usando. Estendi a mão, pedindo um dos sacos plásticos menores. Calcei as luvas de borracha, para evitar o atrito e facilitar o manuseio do corpo. Manipulei a massa do rosto, retirando os dentes que pude. Quase todos, guardados no saco, separado ao lado. 

Tem um ventilador num dos quartos, indiquei. Coloca na janela, ali, virado para fora. Na força máxima. Me trás também o avental.

Alcancei o alicate de plantas, e decepei, um a um, os dedos da mão, metendo-os no segundo saco plástico. Fiz o mesmo com os dedos dos pés: vinte dedos. Estendi o alicate ao menino, para que o guardasse. Se você quiser embora, pode ir. Eu estou preparado para terminar isso. Ele ouvia, mas não havia se decidido. Os olhos eram moribundos, as sobrancelhas convertidas numa trovoada petrificada. Me estendeu a mão, pedindo de volta o alicate. Segue… segue.

Junto da marreta, retirei da caixa um cutelo de açougue, que havia comprado para mim mesmo há dez anos, no Natal. Era imenso, e nunca precisei usar para nada. Rente à mandíbula, na parte superior do pescoço, firmei o gume e com três batidas firmes com a marreta, a cabeça se desprendeu. Pega um saco maior, agora. Desses sem selo, de tamanho médio. Rápido. Estendi a ele a cabeça, e projetando o corpo para dentro do banheiro, abriu a sacola, onde encestei a cabeça. O menino acedeu à nausea, disse a ele que respirasse, e fechei eu mesmo o saco plástico com um nó frouxo, fácil de desatar. Precisa de ar?

Prossegui, com o objetivo inicial de decepar o corpo em seis partes. As juntas já estavam laceradas, mas ainda unidas firmemente pelos tendões. Com a ajuda da marreta, o cutelo partiu facilmente, cada vez mais semelhante ao manuseio de peças num frigorífico. Entornei mais água sanitária, fazendo um segundo enxágue, e lavando as partes, uma a uma. Deixei dependurados por um tempo, logo acima do ralo, e com as mãos em pinça, fiz pressão e deslizei algumas vezes, de cima abaixo, sobre veias, deixando a seiva escorrer, como se torcesse um tecido ensopado de água. 

Separadas as seis partes, dividi cada braço em dois, e as pernas em dois. As pernas precisaram ser cortadas na direção do tendão ao joelho, e foram a parte mais trabalhosa antes de precisar usar a serra. Com a tico-tico, dividi cada pedaço em mais dois, até ficarem com aparência bem próxima de cortes de carne.

“Me dá as horas”, pedi.

“São quase quatro.”

 

Precisava de ao menos duas horas, só para o torso e as vísceras. “Busca a serra, sobre a toalha, ali do lado”. Queria sair cedo. Não queria o menino visto por ali, alguma eventualidade com a polícia ou o processo, ou o caseiro vizinho. Se alguém decidisse prender o cara outra vez, iriam procurá-lo no rancho. 

Como quando desossamos bichos, comecei de cima, lacerando com uma lâmina a superfície e abrindo o abdômen. Dali despojei o intestino e os demais órgãos, descolando-os com a ajuda da faca. Foram se amontoando no chão forrado, deslizando, como um polvo que abre os tentáculos. “Mais água sanitária, guri”, gritei. “Coloca o ventilador no máximo”. Era preciso gerenciar o cheiro de novo. Comecei fazer o despacho dos órgãos lentamente, para não entupir o ralo. Um órgão foi puxando o outro, e, por fim, ficou só a carcaça. Pedi que ele encontrasse uma mangueira de jardim e atarrachasse na pia da cozinha, porque precisávamos de mais fluxo para limpar o banheiro. Foi outra maneira de tirar o menino dali. Com a serra, separei o torso em quatro pedaços. O avental  tingido pingava, as galochas rangiam contra o chão plastificado, como um dia agitado num açougue. 

Empilhei no canto os pedaços preparados. Depois daquele enxágue, o procedimento era menos desordenado. Mais fácil de controlar. Com o a mangueira de água, joguei no encanamento os dentes, um a um, e um a um, também, os vinte dedos, que estavam ensacados como batatas-fritas ensanguentadas. Encaminhei pelo ralo água sanitária, junto da água corrente, e pedras de soda cáustica salpicadas. Desapareceram. A decomposição era rápida, nesse ecossistema de bactérias. Lavei bem as costelas, o torso, e empilhei de lado. “Traz a caixa vazia”, disse, me referindo à caixa que guardavam as tripas. Faltava a cabeça. Evitava encará-la por muito tempo, porque tinha expressão, ainda. Os olhos fechados. Com a faca de lâmina lisa, desprendi a mandíbula, alargando o sorriso até desvencilhar as cartilagens. Foi fácil, porque já estava sem dentes. Atirei na caixa, ficando só com o cocoruto nas mãos. 

Com a serra, segurei pelos cabelos e parti a cabeça em dois. A serra triturava os ossos, produzindo às vezes cheiro de queimado. Não era possível cortar em mais pedaços, a tração da serra era muito forte, mas não quis chamar o menino para ajudar. Lavei, novamente, com o esguicho, e massa cinzenta saiu, nos dentes da lâmina, em pedaços, junto de cartilagens e sangue que não havia escoado. Escoei os fragmentos pelo ralo. Por um instante, imaginei estar narrando todos os detalhes à polícia. Concordaria em dizer tudo, desde que minha família não soubesse dos detalhes. Faria a cidade entrar no mapa. Ganharia um apelido famoso.  Diria por que razão fiz o que fiz, as histórias de satanismo e bruxaria talvez voltassem, ou o diabo havia acabado por me possuir. Joguei tudo na caixa. Ainda lavei tudo ali, de novo, com cloro e mais água sanitária. Por fim, detergente pelos cantos, com o cheiro de eucalipto característico. Fechando o registro, pedi ao piá as toalhas. O lugar cheirava a limpeza, e com o esguicho abundante, perdera a aparência sanguinolenta. O menino interrompeu, quebrando o silêncio de algumas horas:

 

“Quanto vai sair esse?”

 

“O quê? Pagamento?”

 

“É.”

 

“Cinco mil. Dois pra você, três para mim.”

Sobre uma toalha estendida à porta do banheiro, coloquei os pedaços, um a um. O menino trouxe o plástico filme e começou a embalar as partes. Não pode parecer que é alguma coisa fora do comum. Você dê ao menos três voltas em cada uma. A caixa de isopor ali, do lado da geladeira. Trás para cá, vamos colocar tudo ali. E depois, esvazia o refrigerador, coloca tudo no isopor.

“Quem é esse?”, ele perguntou, abrindo a geladeira.

 

“É só um porco, mesmo”.

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