Apartamento 101

CONTO NA ÍNTEGRA

Naqueles últimos minutos antes da partida para Canis Majoris, as pessoas se reuniram para assistir o lançamento do foguete americano. No apartamento 101, a assistente de produção e o vendedor de câmeras, na saleta,  assistiam a cobertura do evento pelo SBT. A assistente negociava a compra do pequeno apartamento. Era para uma celebridade, ela dizia.

 

A Av. Carlos Borges vazia, só fuligem assentada. A paisagem era cor de carvão. “Um vendedor de tinta é que ia ganhar dinheiro aqui”; o vendedor de câmeras pensou. Nem havia mais o que filmar, pensou. A secretária perguntou sobre o bolinho de chuva. O homem se exaltou, “bem lembrado”, disse, se levantando do sofá de courino. Estava rasgado nas dobras; tinha  tanta coisa para trocar no apartamento. O carpete tinha umas manchas fedidas de gordura, de eventos como quando o gato que morava ali levou uma sardinha para fora do prato. A velha perguntava  se eles tinham carpete naquela outra galáxia. De certo, não. 

 

A assistente tirou os bolinhos do forno com as mãos nuas. Não dói, não?, ele perguntou. “Não dói”, explicou. “Eu tenho disso, não sinto dor. Não consigo, nem que queira”, continuou. Ele trouxe a garrafa térmica e algumas xícaras, distribuídas sobre o crochê da mesinha de centro. “Mas que coisa”, disse. Sim. Podia um carro atropelar, a água do chuveiro sair quente, uma topada com o mindinho numa quina. Não dói nada. 

 

Ele pediu atenção para a chamada na tevê. Era o Celso Portioli. Ele fazia o comercial das máquinas de fotografia que ele vendia. Dava pra ver até no intervalo da novela. Jura? Juro. São excelentes câmeras de bolso. 

Faltavam apenas alguns minutos para o início do processo, e o telefone da assistente tocou. Era a atriz. A atriz a quem a assistente assistia, e que ele assistia, na novela. “Fala, querida”, a assistente disse, e ouviram os berros do outro lado. “Sei. Sei, outra crise, você me falou”, a assistente aplacou. Avisou, sussurrando, que a atriz viria pessoalmente. Imagine, a atriz por ali. Só mesmo um lançamento daqueles para promover um encontro assim. “Um prazer imenso”, expressou. Desconfiou que o tal empresário talvez nem existisse. Era jogo para ganhar desconto. Pensou que os bolinhos nem combinavam mais com a ocasião, pois já anoitecia. Prepararia um uísque, tinha um nacional ali na gaveta da estante, ele lembrava. Colocou o paletó de tergal, que usava em visitas comerciais. Quando decidia explicar as funções da máquina, retirava confortavelmente uma máquina do bolso folgado. Já mostrava como elas eram, de fato, portáteis. 

 

A assistente precisou prevenir, explicando a situação da atriz. Não era fácil. Desde o ano anterior, ela havia começado a se transformar aos poucos numa vaca. Sim. Um mamífero bovino. Uma vaca, por assim dizer.Exatamente; inacreditável, uma coisa daquela. A carreira praticamente encerrada, sim. Só cinema, dali para frente. E olhe lá. Nem teatro. Ele não entendia nada de teatro, então não comentou. 

 

Começou com o nariz, foi se alargando e ganhando uma cobertura de brotoejas irregulares. As narinas se expandiram com mais rapidez que as orelhas, e as unhas cresciam aos poucos para cima, dando a forma dos cascos. As pernas ficaram musculosas, alongadas, ela de fato não podia reclamar. Mas os seios se enchiam tanto de leite que ela tinha que se ordenhar toda manhã. Às cinco da manhã, e ela gostava de dormir até pelo menos nove e trinta, mesmo quando havia gravação. A assistente bem sabia, ligação para ela só depois das nove e meia. 

 

“Ah, sim”, respondeu disfarçando o desconforto. Desde o anúncio do lançamento, ele havia desenvolvido uma súbita neurose, quase indizível. Uma fobia que se confundia com vontade irresistível: salivava quando via coxas descobertas, braços abertos, carne viva. No começo, pensou ser uma tara. Mas era fome. Sim, era chocante, ele pensava consigo. Mas tudo havia de se explicar quando voltassem do planeta novo, haviam de trazer alguma enciclopédia de lá, alguma máquina pra resolver o problema. Ou havia de ser passageiro, também. Alguma consequencia de stress, uma fuga da rotina.

 

“Olha lá, vai começar”, ele notou. O repórter informava que era a primeira vez que o homem excursionava para perto de Canis Majoris, a maior estrela no Universo. As pessoas podiam viajar a jato por cem gerações, que nunca dariam a volta na sua imensa superficie. Era um ponto de luz adimensional. Grande demais para ser um ponto; grande demais para se explicar. Todo mundo queria se mudar para a órbita de Canis Majoris. Desde que a sua imagem foi transmitida pela tevê pela primeira vez, a alma das coisas tinha mudado, de alguma forma. 

A campainha tocou. A assistente decidiu atender a porta, logo reconhecendo a atriz debaixo da pelagem que já se pronunciava de forma mais acentuada. Apresentou-a para ele, que se disse encantado, e fingiu não perceber nada de anormal. “Vocês estão vendo a cobertura do Fausto?”, perguntou. “Não, do SBT”. O rapaz tinha de conferir um título de capitalização nos comerciais, era por isso. Ah, sim. Enquanto passavam os intervalos (a atriz perscrutava para ver se havia algum conhecido). Ele se aproximou com uma das câmeras que vendia (aquela era dele, para uso pessoal), e tirou uma selfie com as duas. A assistente mostrou para a atriz como as fotos haviam saído e escolheram uma em que ela aparecia mais enviesada, com os dois olhos aparecendo na foto.

 

A atriz olhava a domesticidade da decoração, suspirando pelas ventas largas. Que tristeza. Da orla de Copacabana, acabara numa kit-net decorada ao gosto de alguma velha, barganhando o preço de compra com um homem que obviamente nem morava lá. O mundo acontecia em Canis Majoris, ela sabia. Esperava reencarnar como outro animal sagrado, mas que fosse em Canis Majoris.

O lançamento começava. O padre Fábio de Melo participava cantando uma música-tema de sua autoria, composta para o evento. Glória Pires declamou poemas de sua autoria. A construtora MRV havia distribuído faixas coloridas pela plateia. A plataforma começou a desmaterializar-se, e os dálmatas de louça da prateleira começaram a tremer. “Que engraçado”, o vendedor disse. “Até parece que está tremendo, não parece?”. Tremia. E não era só: a luz de Canis Majoris brilhava no céu, pelo fragmento temporal aberto pelas plataforma de lançamento. Ele se enchera de uma fome brutal, inspiradora; podiam ver o lume pela janela, e tudo tremia; prédios se esfarelavam nas juntas, e a atriz debaixo da pelagem enlouqueceu com o som propagado -- os dois tentaram imobilizar o animal, tentando dialogar, mas a atriz desferiu um coice violento que atingiu a fronte da assistente. Caída no chão, sangrava com o crânio afundado, mas parecia bem. O vendedor segurava os chifres, e o bicho empinava com força; levou a mão à conta, onde tinha um canivete retrátil, de gume afiado. Desferiu um golpe no papo, seguido de outros sessenta ou setenta, cutucando com a ponta da lâmina até achar a jugular do animal. Encontrando a artéria, o sangue jorrou morno, com a força da pulsação minguante, recobrindo ele e a assistente atordoada. 

 

A assistente acordou de banho tomado e camisola limpa.  A hora do dia tinha o sol transversal, amarelo-morno. Ele havia arrumado a casa toda, e comia bifes em frente à tevê. 

 

"É ela, não é?" 

"É. Mais ou menos. É só bife." 

"Tem a cabeça de alguém no armário do quarto. De uma mulher." 

"Eu sei, é a antiga dona do apartamento." 

A assistente se acomodou no sofá, procurando saber sobre o lançamento. O sol estava brando, adentrando as cortinas de crochê. 

"Fiz café, pode tomar."

A moça agradeceu. Canis Majoris brilhava no céu, a imagem na televisão era uma miniatura da realidade fora da janela. Celso Portioli perguntaria a um técnico quais eram as próximas etapas da assimilação, depois da impressionante demonstração de um adestrador de cães.

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AUTOR

Sérgio Lutav

Na terceira pessoa: natural de Maringá, no Paraná, é ficcionista, designer e pesquisador de tecnologia e cultura. É Mestre e PhD em Cultura e Tecnologia pela Universidade de Jyväskylä, na Finlândia.

 

Seu livro Paramedia lança uma teoria literária sobre como consumimos textos digitais, apresentada pela primeira vez na conferência Media in Transition, do MIT (Massachusetts Institute of Technology).

É autor das ficções digitais Categories e Chrysalis (2009), ambas indicadas pela Folha de S. Paulo. Novel (2008), foi destaque no blog do MoMA San Francisco.

 

Seu romance Capricórnia (Editora Patuá) foi publicado em 2015. Mais sobre o autor e seus trabalhos em lutav.com.

Como Invocar o Diabo e Conjurar Espíritos Baixos foi selecionado por Paulo Sandrini para integrar a coleção Geração 10, com autores paranaenses surgidos nos anos 2010.

#ForaBolsonaro

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